Quando a Identidade Nasce das Feridas

Introdução

Deus nos criou à Sua imagem e semelhança (Gn. 1:26-27). Isso significa que fomos criados para refletir o Seu caráter, viver em comunhão com Ele e representar o Seu governo sobre a criação. Não somos Deus, mas fomos criados para refletir quem Ele é.

Isso muda completamente a maneira como deveríamos nos enxergar.

Quando o pecado entrou no mundo, não apenas separou o homem de Deus, mas também feriu sua identidade. 
O ser humano passou a construir sua percepção de si mesmo a partir da culpa, da vergonha, do medo, da rejeição e das experiências dolorosas da vida, em vez de fundamentá-la em Deus.

Mesmo após o novo nascimento, o cristão ainda enfrenta as marcas da velha natureza e das feridas acumuladas ao longo da vida. 
Por isso, a caminhada cristã envolve um processo contínuo de renovação da mente e restauração da identidade em Cristo.

Por causa do pecado, o mundo precisa de um Salvador (1Tm. 1:15).

Por causa das feridas, o mundo precisa de um Médico (Mc. 2:17).

I. Dois tipos de feridas

1. A ferida herdada de Adão (Gn. 5:1-3)

Depois da queda, a imagem de Deus no ser humano não foi destruída, mas profundamente corrompida e obscurecida pelo pecado. A maneira como o homem passou a enxergar a si mesmo, os outros e o próprio Deus foi distorcida (Gn. 3:7).

A partir de então, uma ferida espiritual passou a fazer parte da condição humana, antes mesmo de qualquer experiência traumática pessoal.

2. As feridas da nossa história

Rejeição, abandono, abusos, fracassos, perdas e palavras que machucaram deixam marcas profundas. Essas experiências criam lentes emocionais que nos fazem enxergar a nós mesmos como incapazes, fracos e inferiores, como os "gafanhotos" de Números 13.

Jesus disse: "Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz" (Mt. 6:22).

Na perspectiva da Terapia Cristã, essas feridas influenciam nossas emoções, pensamentos, crenças, sentimentos e comportamentos.

A ferida herdada de Adão e as feridas da nossa história se somam. Sem perceber, passamos a construir nossa identidade sobre a dor, reagindo às experiências do passado em vez de viver pela fé nas promessas de Deus.

II. A Canaã dos nossos sonhos (Nm. 13:27-33)

Todos nós desejamos melhorar de vida.

Para alguns, a Canaã representa a restauração da família. Para outros, vencer um trauma, superar um vício, curar uma enfermidade, reconstruir a vida financeira, desenvolver o ministério ou encontrar paz interior.

O problema é que, quando começamos a caminhar em direção à terra que mana leite e mel, encontramos desertos, gigantes, muralhas e cidades fortificadas.

Entretanto, os gigantes, as muralhas e as fortificações não são o maior problema. O maior problema é a maneira como enxergamos a nós mesmos diante deles.

Os dez espias disseram:

"Aos nossos próprios olhos éramos como gafanhotos" (Nm. 13:33).

Doze homens viram a mesma terra. O que mudou não foi a realidade; foi a identidade de quem a observava.

Na visão terapêutica cristã, marcas emocionais profundas moldam a maneira como interpretamos a realidade. Muitas das muralhas internas que construímos parecem mecanismos de proteção, mas acabam produzindo medo, bloqueios, autossabotagem e paralisia diante dos desafios.

Moisés também enfrentou essa batalha interior.

Quando Deus o chamou, sua primeira reação foi olhar para suas limitações.

"Quem sou eu?" (Êx. 3:11).
"Eles não crerão em mim." (Êx. 4:1).
"Nunca fui eloquente." (Êx. 4:10).
"Ah, Senhor! Envia outra pessoa." (Êx. 4:13).

Antes de enfrentar Faraó, Moisés precisou enfrentar a imagem que tinha de si mesmo.

III. A transformação da identidade: o caminho da cura

O primeiro passo para viver as promessas de Deus é tornar-se uma nova criatura em Cristo.

O segundo passo é permitir que o Espírito Santo transforme continuamente nossa mente, conforme Romanos 12:2.

Deus não trata apenas os sintomas - medo, vergonha, culpa, ira ou dor.

Ele vai à raiz do problema, restaurando nossa identidade de filhos amados, feitos à Sua imagem e semelhança (Rm. 8:15-16).

Quando nossa identidade passa a ser construída sobre a Palavra de Deus, começamos a nos enxergar como pessoas chamadas, capacitadas, fortalecidas e amadas pelo Senhor.

Eu mesmo estou trilhando esse novo e vivo caminho. Aquele que começou a boa obra em mim continua aperfeiçoando-a.

Gigantes, muralhas e fortalezas ainda se levantam, mas, pela Palavra de Deus e pelos conhecimentos adquiridos na Terapia Cristã, tenho aprendido a renovar minha mente, ressignificar minhas feridas à luz das Escrituras e substituir crenças limitantes pela verdade de Deus.

Estou deixando para trás o complexo de inferioridade, os impulsos de ira, os bloqueios mentais, as falsas crenças construídas pelas experiências dolorosas e as marcas do passado.

Creio que a conquista da minha terra que mana leite e mel me dará condições de viver plenamente o chamado que Deus me confiou, com liberdade para servir, maturidade emocional, cura interior e prosperidade suficiente para abençoar muitas vidas.

Conclusão

A maior batalha do cristão nascido de novo não é contra os gigantes, as muralhas ou as fortificações externas.

A maior batalha acontece dentro da mente e do coração.

Enquanto a identidade continuar sendo construída pelas feridas, viveremos como gafanhotos.

Mas, quando nossa identidade for restaurada pela Palavra de Deus e pela ação do Espírito Santo, passaremos a viver como filhos, herdeiros e mais que vencedores em Cristo.

A cura das feridas não muda apenas o que sentimos.

Ela transforma a maneira como nos enxergamos, como enxergamos Deus e como enfrentamos a vida.

Salmos 18:29 
"Com meu Deus salto muralhas."

Com meu Deus venço gigantes, como Josué, Calebe e Davi.

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